O balde

Outubro 30, 2007 at 9:30 am | In cólera, guerra, histórias, intolerância, preconceito | Leave a Comment

O balde

Um velho camponês observava, descontente, um jovem que construía uma cabana perto do seu arrozal.

— Pergunto-me de onde veio — disse à mulher, nessa mesma noite. — Não é daqui da terra. A julgar pelas roupas, é originário das montanhas. Que vem fazer para aqui? Isto não me agrada nada. Isto não me agrada mesmo nada…

— Porque não vais cumprimentá-lo amanhã? — aconselhou-o a mulher. — Dá-lhe as boas vindas. De certeza que não conhece ninguém por estes lados.

— Nem penses nisso — ripostou o camponês. — Não sabes que os habitantes das montanhas são todos uns ladrões? Ignoremo-lo. Com sorte, talvez até se vá embora.

Todos os dias, o camponês trabalhava no arrozal. Com a água pela barriga das pernas, arrancava as ervas daninhas e punha-as num balde. Uma manhã, descobriu que o balde não estava no sítio do costume.

— Eu sabia — vociferava, enquanto levantava a cama e espreitava por detrás do armário. — Eu sabia. O homem roubou-me. Roubou o meu balde!

A mulher perguntou-lhe:

— Quem te roubou o balde?

— Ora quem! — sussurrou o homem — O montanhês!

— Ninguém te roubou nada — assegurou a mulher. — Sabes muito bem que passas a vida a perder tudo. Procura bem o balde e acabarás por encontrá-lo!

Mas o camponês não lhe deu ouvidos. Saiu de casa à socapa e foi espiar o vizinho. O jovem estrangeiro cuidava tranquilamente das suas tarefas, mas o camponês achou que ele tinha um ar suspeito.

— Não há dúvida — disse para consigo, semicerrando os olhos enquanto observava o montanhês. — Tem ar de ladrão de baldes, anda como um ladrão de baldes: é um ladrão de baldes!

— Bom-dia, vizinho — saudou-o o jovem, ao aperceber-se de que o camponês o espreitava por detrás de uma árvore.

O velho fugiu a correr. Quando chegou junto da mulher, disse-lhe, esbaforido:

— Estás a ver, até me cumprimenta para que não desconfie dele. É mesmo arrogante! Desafia-me! Ri-se de mim!

O camponês barricou-se em casa com a mulher, as dez galinhas e os três porcos.

— Meu pobre amigo — disse-lhe a mulher, abrindo a porta — perdeste mesmo a cabeça!

— Mas — gemeu o camponês — agora que tem o meu balde, vai querer tudo o que eu tenho. E ainda não te disse tudo — acrescentou o homem, batendo os dentes. — Quando não são ladrões, os montanheses são assassinos!

A mulher encolheu os ombros e foi dedicar-se às tarefas do dia.

Ao cair da tarde, o camponês saiu de casa para beber água do poço. E o que viu ele, pousado no parapeito do poço? O seu balde! Lembrava-se agora que tinha ido buscar água para dar de beber aos animais. Tinha-se esquecido completamente de pôr o balde no lugar.

— Mas — repetia para si mesmo, envergonhado — o montanhês tinha mesmo ar de ladrão…

 

Johanna Marin Coles

Retirado de: Caminhos para a paz

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