Amesterdão
Dezembro 13, 2007 às 7:54 am | Na categoria diferença, guerra, História, holocausto, paz, respeito | Deixe o seu comentárioIlse Losa
À flor do tempo
Porto, Edições Afrontamento, 1997
Amesterdão
Prinsengracht, 263
Caminho entre casas e canais, sempre casas e canais, debaixo de uma chuva torrencial. As casas são altas e esguias, de uma nobreza sóbria, despidas de qualquer pompa, sem alardes, estranhamente genuínas. A multidão apressa-se pelos passeios estreitos. Foge da chuva.
«Não aguento mais isto», oiço dizer, em espanhol, a uma senhora de casaquito leve e tacões pontiagudos.
Não posso deixar de sorrir do contraste que ela forma com as holandesas, de indumentária prática, de sapatões que fazem lembrar barcos, certas assim neste ambiente cinzento, de humidade quase fumegante.
Finalmente estou na Prinsengracht. Passo pela Westertoren, cujos sinos a Anne Frank muito apreciava e que lhe fizeram tanta falta quando, um dia, deixaram de tocar. «Os sinos da Westertoren já não tocam. Achava-os tão bonitos e calmantes».
Depois encontro-me em frente ao número 263, uma casa igualmente estreita, esguia e velha como todas as casas naquela rua, mas que se distin¬gue por uma tabuleta onde leio: «Anne Frank Huis» — a casa de Anne Frank.
Foi então aqui que ela entrou num dia de chuva como hoje: «Assim corremos, debaixo da chuva, a mãe, o pai e eu, cada um com uma pasta e uma saca de compras, completamente cheias, sabe Deus com quê». Foi também daqui que, dois anos mais tarde, saiu, empurrada pela Gestapo, para nunca mais voltar.
Entrei naquela casa, que me era familiar pelas minuciosas descrições de Anne. Subi a escada de poucos degraus, passei pela porta para o escritório «grande»…
Uma senhora holandesa veio ao meu encontro. Pediu-me para me juntar ao grupo já presente — gente nova vinda de várias partes do mundo para ver onde Arme Frank passara aqueles terríveis anos de isolamento. Dentro de poucos minutos eu estava em conversa com umas raparigas alemãs. Tinham vindo da cidade de Oldenburg, de propósito, para ver o esconderijo de Anne. Um casal de estudantes italianos, de mochila às costas, perguntou-me de onde eu vinha e se conhecia o diário de Anne.
A senhora holandesa, que falava várias línguas, conduziu-nos então pela casa toda. Não havia mobília, a casa estava em obras, os papéis tinham sido arrancados das paredes. Passámos pelos antigos escritórios onde trabalhavam a Miep, a Elli, o Sr. Koophuis… Os jovens conheciam todos os nomes das personagens e faziam inúmeras perguntas, a que a senhora respondia com paciência.
A cozinha, o corredor comprido, a escada de madeira que nos leva ao vestí¬bulo que acaba noutro corredor. E, finalmente, a porta para o «anexo» onde os Frank viveram escondidos durante dois anos. E uma escada íngreme, tão íngreme que custa a subi-la.
«A sala onde dormiam os pais de Anne e onde se tomavam as refeições», explica a senhora.
Ao lado, o quarto de Anne e do velho dentista — quarto estreitíssimo que me fez recordar as lutas pelo espaço que os dois travavam.
No chão, no sítio onde estivera a cama de Anne, viam-se ramos de flores com cartões, quase todos eles de turmas escolares. Um tinha vindo de uma escola na Alemanha.
Subimos para os quartos de cima, onde dormiam o casal Van Daan e Peter, seu filho. Um autêntico cubículo o quarto de Peter, onde ele e Anne falavam de amor, da vida lá de fora, dos planos do futuro… O som dos sinos entrava neste momento pela janelinha de onde se avistava a Westertoren.
Subimos também o escadote que dá para o sótão. Aqui Anne e Peter sentavam-se nos velhos escadotes, olhando os telhados da cidade.
Todo aquele «anexo» parecia-me muito mais acanhado e mais triste do que Anne o descrevera. Talvez fosse só impressão minha, por lhe faltar o mobiliário. Mas ao imaginar aquela habitação, toda ela cercada por muros e casas, fechada, de cortinas cerradas que só de noite se podiam afastar por uns curtos momentos, experimentei uma angústia fria, quase semelhante àquela que me invadiu quando visitei Dachau, onde a ferocidade humana atingira o máximo de requinte.
Os jovens agora falavam pouco; só faziam, de vez em quando, uma tímida pergunta: «Não era aqui que ela se sentava com o Peter?» «Era aqui onde escrevia?»
Descemos. Deixámos «Het Achterhuis», o anexo, e voltámos para a grande sala no edifício da frente. Aí, a senhora deu-nos ainda algumas explicações: «A casa foi oferecida pelo seu proprietário à Fundação Anne Frank, cujo projecto é transformar a parte da frente em centro de estudos para estudantes estrangeiros e o «anexo» em museu. Uma parte das despesas será coberta com a receita do Diário. Para o restante, a Fundação já conseguiu interessar grande número de pessoas, que fornecerão apoio e auxílio. Pretende-se com esta obra fazer lembrar ao mundo o sacrifício, o martírio e a dor de tantos que, como Anne, tiveram de morrer inocentemente, e divulgar os ideais expressos nas páginas de Anne. «Tenho de manter firme os meus ideais; talvez ainda os possa realizar nos tempos que hão-de vir».
Alguns dos visitantes queriam pagar à senhora os seus serviços.
«A mim não me devem nada. Mas se alguém quiser contribuir para o restauro da casa, encontrará uma caixa na sala da frente…»
Lá fora ainda chovia. A água do canal era agora verde-escuro. Despedimo-nos uns dos outros. Iríamos partir para diferentes partes do mundo. Mas alguma coisa ficava a unir-nos: a angústia dos anos passados e a do presente e também — disto tenho a certeza — a generosidade daquela criança que apesar de tanto ter sofrido, soube escrever: «Creio no que há de bom no homem».
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