Sobre os contos de Anne Frank

Dezembro 13, 2007 at 7:49 am | In História, anti-semitismo, diferença, guerra, histórias, holocausto, intolerância, respeito | Leave a Comment

Ilse Losa
À flor do tempo
Porto, Edições Afrontamento, 1997

Sobre os contos de Anne Frank

Há dias recebi a visita de um escritor holandês que faz parte da Fundação Anne Frank e é amigo pessoal do Sr. Otto Frank, o pai de Anne e único sobrevivente das oito pessoas que se tinham escondido no anexo da Prinsengracht para escaparem à selvajaria nazi. A nossa conversa caiu, como não podia deixar de ser, sobre Anne. O escritor que, durante o período da ocupação alemã na Holanda, fizera parte do movimento da resistência holandesa, disse com pesar:

— Ai, se tivéssemos conhecido Anne! Ter-lhe-íamos arranjado documentação falsa com que se pudesse movimentar sem dificuldade. Ajudámos tanta gente a salvar-se dessa maneira das garras dos alemães enlouquecidos! É doloroso pensar que Anne, rapariga dotada de um talento raro e de personalidade invulgar, não tenha recebido a nossa protecção. Mas era impossível termos conhecimento de todos esses infelizes que, desesperadamente, tentaram não se afundar no sangrento mar da carnificina nazi.

— Também acha então que Anne era um real talento? — perguntei.

— Mas sem dúvida! Provou-o mais que suficientemente no seu diário e nesses pequenos contos em que deu largas a uma fantasia admirável.

Sim, Anne não era uma dessas habilidosas meninas-prodígio que são a ostentação da família. Anne escrevia por necessidade e não a interessava ufanar-se com as suas produções. Vários dos seus contos, o próprio pai só chegou a conhecê-los depois de ter voltado do campo de concentração e quando lhe entregaram os cadernos de Anne.

No seu diário, Anne apontava o que via, ouvia e vivia, procurando ser exacta não só em relação à análise das pessoas com que contactava mas também em relação a si própria. Forneceu ao mundo um documento importante, e de tal forma importante que, na Alemanha, os funcionários dos serviços criados para a reparação dos danos causados aos judeus são obrigados a lê-lo para se compenetrarem da medonha injustiça cometida contra gente inocente e sem defesa. Nos seus contos, Anne transpõe a realidade que vivia para histórias de ficção, exprimindo, assim, uma verdade superior e transcendente. Nas figuras de Kaatje, de Eva, de Katrientje, do ursinho Blurry e em outras mais, reencontramos a angústia de Anne, presa numa casa de cortinas sempre cerradas, a sua solidão, o desejo de viver uma juventude a que tinha direito como todos os outros jovens, a saudade do ar livre, das árvores, das flores, dos canais de Amesterdão. Em todos os contos pressente-se a vida a que Anne aspira e da qual foi excluída. E o que me parece mais extraordinário é o facto de ela nunca exprimir nem ódio, nem inveja, nem mostrar espírito de vingança. Essa rapariguinha que tão bem via as qualidades e os defeitos das pessoas à sua volta, que conhecia os horrores dos bombardeamentos aéreos, que assistia a conversas sobre acontecimentos por vezes macabros, essa mesma rapariguinha conserva todas as características de uma adolescente que leva uma vida normal: o gosto pelas sílfides, pelas fadas e pelos gnomos, o amor aos animais e às colegas da escola e até o prazer de moralizar. No quarto apertado que tinha de partilhar com o dentista neurasténico, escreve sobre gente pobre a quem se deve não só dar de comer mas também calor humano; da urgência de sermos justos e da «felicidade que está sempre presente». Os contos de Anne Frank são a prova mais evidente do seu talento e da sua integridade.

No dizer do senhor Otto Frank, a edição portuguesa dos contos de Anne representa uma iniciativa única. Se em alguns dos países onde foram traduzidos, também houve a iniciativa de entregar a tradução a uma adolescente, nenhum editor, no entanto, se tinha lembrado ainda de recorrer à juventude para fornecer as ilustrações. Aqueles que têm pouca fé na juventude portuguesa talvez se espantem ao ficarem a saber que no concurso organizado para esse efeito participaram perto de 3.000 jovens. Para ilustrar o livro escolheram-se as pinturas e os desenhos premiados. Para dar uma ideia completa desta manifestação de solidariedade da juventude portuguesa para com uma rapariga, vítima da injustiça de um regime desumano que nem sequer soubera parar diante das crianças, a editorial realizou uma exposição pública de todas as ilustrações recebidas. É sem dúvida um acontecimento notável a registar neste nosso século, que alguém, que decerto não previra a matança dos inocentes, chegou a chamar «o século da criança».

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